B-E-I-J-O

25 de Setembro de 2019

Por Noemi Jaffe no Blog Cia. das Letras

 

Não sou uma pessoa conservadora, mas não gosto do uso de “bj”, “abç”, “vc” e afins. O conservador é o que gosta de conservar e, nesse caso, gosto de pensar em conservar o “beijo”, o “abraço” e “você”, entre outros. As justificativas que me dão não convencem. Economizar tempo. Economizar o tempo de duas ou três letras? No cômputo geral, com todas as abreviações, a pessoa acaba economizando. É verdade. Pode ser que ao longo do dia inteiro teclando, ela tenha economizado uns cinco ou dez minutos nessa supressão de letras. Não me impressiona.

Costumo carregar de sentido o beijo que mando, o abraço e o você a quem me direciono. Por que reificar o sentido dessas palavras, tornando-as mais fáticas do que já são no uso corrente? Por que não dar a elas, justo elas, o toque de autenticidade de uma mensagem? Pense-se na diferença entre, por exemplo, “beijo”, “um beijo”, “beijinho”, “beijos” e “beijão”. São totalmente diferentes e mudam o teor da mensagem inteira, que se transforma instantaneamente por contaminação do tipo de beijo que se envia. O mesmo com “abraço” e suas variações. “Abração” é tão diferente de “abraço” que, por sua vez, não poderia ser mais diferente de “um abraço” ou do tão pouco utilizado “abracinho”.

Fora a coincidência, que considero uma das maiores da língua, entre os sons da palavra “beijo” e o ato mesmo de beijar. Pense nos sons: b-e-i-j-o e em como eles beijam a boca de quem o enuncia. Como é bom dizer “beijo” e, com isso, oferecer, à mensagem inteira, uma carga de inutilidade e carinho, ao passo que “bj” só se adequa perfeitamente a toda a impessoalidade e pragmatismo do resto do conteúdo. Digo, por exemplo, “Joana, você esqueceu de comprar batatas no super”. Se, ao final, acrescento um “bj”, estou contrariada ou simplesmente dei a mensagem e não estou nem aí com a Joana. Só me preocupei com as batatas. Mas se digo “beijo”, estou quase dizendo que vou eu mesma comprá-las e que é tão bonito o jeito como Joana as esquece.

Penso que a função fática é uma função, afinal. Estabelecer contato, afinar o canal. Por que tornar a função fática apenas uma reprodução vazia de automatismos cotidianos? Por que não dizer “oi”, essa palavra tão linda, dando sentido, ainda que mínimo, ao “oi” que se diz. “Oi, pessoa”. “Bom dia, pessoa”. “Eu te desejo um bom dia”.

“Vc”, para mim, chega a ser desrespeitoso. Sou o “você” do outro, uma unidade mínima de estranhamento e alteridade. “Vc” me soa como uma extensão do “eu”, uma mesmidão a que não quero me adequar. Passo a ser só mais um dado na praticidade geral das mensagens.

Sei que exagero. Não devia levar tão a sério essas palavras. Ninguém deixa de ser respeitoso ou carinhoso por isso. Deve ser verdade. Mas não quero sucumbir. Quero ter uma reserva mínima de conservadorismo, necessária só para o meu bem estar. Vou continuar usando “beijo”, “abraço”, “você” e “por que”, mesmo quando até meu nome vire “Nm”. Gosto das vogais.

 

Endereço: https://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/B-E-I-J-O