ARTIGOS

Polpa

6 de Janeiro de 2021

Por Noemi Jaffe no Blog Cia. das Letras

 

Novo, pelo uso que nos habituamos a fazer dele, costuma se opor a velho. Não é por acaso que dizemos, no ano que se inicia, feliz ano novo e adeus ano velho. Nesse adeus da expressão, significamos um subentendido já vai tarde que, aposto ao velho, carrega também este último de conotações negativas.

Mas novo, para ser bom – e o mais impensável, feliz – não precisa se opor a velho. Antes o contrário. Um ano novo que, digamos, seja como uma compota feita com frutas já não tão frescas, seria um bom ano. Colocamos os pêssegos e ameixas mais enrugadinhos e adicionamos um limão bem verde e ácido, novo, compondo assim um sabor agridoce inesperado. Cabe bem em qualquer ano que se inicia.

Ou então, pode-se pensar na ideia de um ninho, feito de gravetos caídos, fios de nylon encontrados ao acaso, restos de algum uso, folhas caídas, tudo coisa velha, com que se monta uma estrutura engenhosa e sempre única, onde vão crescer ovos novos, criando o que se costuma conhecer como feliz ano n’ovo. Aliás, ver o ovo como o viu Clarice Lispector, em O ovo e a galinha e ser capaz de espantar-se com o que já se conhece, é bem o que quero dizer com a novidade que abrindo-se, descascando-se, contém o velho e vice-versa. Tim Ingold (minha mais recente descoberta na antropologia) diferencia, em Estar Vivo, entre a surpresa e o espanto. Diz que a surpresa é matéria de contabilidade, quando algo escapa a um controle previsto. Já o espanto é de outra natureza: é possível espantar-se com uma xícara de café, com o gato que você já conhece e com um ano que se inicia. Não é necessário nada de tão espetacular para que ocorra o espanto, essa matéria-prima em extinção. Modesto Carone já disse, comentando Kafka, que o espantoso é que o espantoso não espanta mais.

É certo, entretanto, que 2020 é um ano, esse sim, que todos querem ver bem longe, à distância. Nunca vivemos um trauma coletivo tão amplo e fundo como esse, aqui no Brasil multiplicado pelo desgoverno que nos conduz ao abismo.

Mas e se, para 2021, pensássemos em um 2020 que fosse possível torcer como uma roupa molhada, espremer numa máquina de fazer suco, para dele extrair um sumo? Tipo polpa de 2020.

E o que haveria nessa polpa? Para mim, todos os filmes de Fellini e de Tarkovsky, nhoque de mandioquinha, carne de panela, a Ilíada, 2666, de Bolaño, Herzog, de Saul Bellow, aulas por zoom com gente de todo o país, minha cachorra e minha gata, poucos almoços feitos em casa com meus filhos e agregados. Para o país, algumas poucas iniciativas de fazer oposição e de se organizar para permitir que a ciência tenha a voz que deve ter, além da percepção do tamanho do mal que foi alçado à nossa liderança.

O mais provável é que muito pouca coisa mude realmente no ano novo que, na verdade, só é novo porque um novo ciclo de translação se inicia. Pandêmica e politicamente, para que haja novidades, será preciso que descasquemos 2021 com delicadeza para encontrarmos, por baixo de sua película, gomos que vêm ao menos desde 2013, com a chance de uns carocinhos nascentes.

Vamos plantá-los com espanto.

 

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A Samba

25 de Agosto de 2020

Por Noemi Jaffe no Blog Cia. das Letras

 

Tantas coisas, ao longo dessa quarentena (cinquentena, sexagentena, inumeravelena), tem passado para o campo do indizível, que fica difícil saber o que, nesse intervalo, é possível expressar. Mas dentre todas essas coisas intraduzíveis, quero falar da Samba, minha cachorra.

Nos olhos dela me consolo. As pupilas bem no centro, mirando reto nos olhos de quem a olha, acreditam. Sem nenhum predicativo, elas acreditam. Essa confiança sem preposição e sem regência toda noite me prepara para mais um dia de confinamento. Me aproximo para dar boa noite e ela se entrega, virando-se de barriga para cima e oferecendo o corpo para que eu o acaricie. Passo minha mão por tudo e quem é acariciada sou eu: por seu pelo farto e macio, por seu abandono a minha mão. Passo os dedos fortes pelo rosto e ela fecha os olhos com agrado. O rabo, que se abanava, se aquieta e tudo nela e em volta silencia. Aproximo meu rosto do dela e ouço só a respiração, longa e tranquila, com um suspiro pesado no entremeio.

Nenhuma palavra bonita combina quando tento falar sobre ela: disse “entremeio”, mas me arrependi. Para falar dela, é como se só pudesse dizer “água”, “pão” e “casa”. Então digo: Samba água, samba pão, samba casa.

A palavra “amor” foi carregada, historicamente, de conteúdos infindáveis. Preciso esvaziá-la de todos eles para falar da Samba. Preciso da palavra “amor” sem nada dentro, como a flor de João Cabral, que é apenas a palavra flor.

Depois que ela termina de comer a ração, sabe que vou dar dois biscoitos. Ela se achega e fica me olhando, tesa e com o rabo abanando, torcendo a cabeça na direção do armário onde fica a lata de biscoitos. Quando me levanto para pegá-los, ela mal contém a euforia e excitação, eletrizando o corpo inteiro na direção da prenda. Depois que ela pega, leva para sua almofada, sua pequena casa onde tanta coisa acontece. Seu esconderijo, janela, abrigo, consolação, zona de experimentação de comida, canto. Na almofada ela se enrola e fica pequena ou se espalha e parece um bezerro. Quando olho para ela, estendida no chão, às vezes me lembro de uma cadeia de montanhas, outras de um cavalo adormecido. Ela é minha cordilheira.

Também não quero metaforizá-la. Quando digo “ela é minha cordilheira”, não quero me referir a isso como uma representação. Digo que é a cordilheira mesma, cadeia de montanhas me escorando dos medos e nojos. Todo o nojo que sinto pelo governo, pelas calamidades comezinhas, se dilui diante do tamanho dessas pupilas crédulas. Alguma coisa sempre resta além, aquém da minha mentira e da minha verdade, num lugar onde o que se diz é menor do que o que não se diz.

Quando acordo e desço as escadas para a cozinha, ela está no pé da escada, esperando, com as patas cruzadas, como uma “lady”, quando, na verdade, ela está mais para “vagabunda”. Assim que eu chego, ela pula, corre, galopa, abraça e vai na direção da porta, pegar o jornal. Por que conto isso? Todos os cachorros fazem assim. Não sei por que conto. Não sei nada do que conto, nem os porquês, quando se trata dela. Sinto que simplesmente dizer o que ela faz vai fazer com que todos reconheçam sua singularidade. Poderia escrever esse texto somente assim: a Samba come, dorme, pula, gosta de bolinha e de carinho. E fim.

A Samba e minha dificuldade de dizê-la têm sido o reverso da quarentena: ela me lança para o mundo, para o que não posso ser, para o que sou. A Samba está fora da linguagem e agradeço a ela por isso.

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Alma

29 de Junho de 2020 às 15:05

Por Noemi Jaffe no Blog Cia. das Letras

 

Às vezes as pessoas me perguntam o que é "escrever com alma". Eu mesma também me faço essa pergunta frequentemente. Isso acontece porque também é frequente que eu leia textos que considero bem escritos, com todos os recursos bem empregados e com um domínio narrativo de grade destreza - e a palavra é mesmo essa - mas aos quais falta, o quê?, verdade, alma, necessidade, organicidade? Difícil nomear o que falta, mas, quando isso acontece, é perceptível que a destreza técnica se sobreponha a esse lastro.

Muitas vezes também me pergunto se essa sensação provém de um idealismo infantil, cuja premissa partiria de uma verdade que só pode se expressar em algum conteúdo mais profundo. Mas não é isso. Mesmo em textos que não se propõem a uma densidade reflexiva, é possível reconhecer essa unidimensionalidade, a ausência desse "quê".

Penso que, em arte, a verdade é umas das coisas mais questionáveis que existem. Se o conceito já é motivo de contradições e indefinições em filosofia, na ética e na política, na arte ele chega a beirar o absurdo, já que a arte, desde a Grécia Antiga, ao menos, sempre projetou sua própria verdade.

Mesmo assim, me arrisco a uma possibilidade de definição. Como a literatura se realiza a partir da integração entre palavra e pensamento, palavra e imagem, palavra e objeto, palavra e ideia, penso que é a coincidência entre o que se diz e como se diz - ideal de todo bom escritor - que perfaz o caminho para a chamada alma ou verdade literária. Se falo sobre a solidão de um personagem, é preciso que, de algum modo, minha linguagem seja, também ela, solitária. Se tematizo um jogo de futebol, também o ritmo, a elocução, a dinâmica da escrita deve ser "futebolística", tensa e polarizada. E se for desejo do autor que haja uma oposição entre o que se diz e como se diz - uma narrativa sobre a solidão escrita de forma eufórica, por exemplo - essa intenção deve estar clara no próprio texto, mesmo que, para isso, o leitor não precise se deter sobre ele. Ao contrário, o leitor percebe essa intencionalidade independentemente de um trabalho analítico ou interpretativo.

Um texto literário pode apresentar grande densidade narrativa, em termos temáticos, mas se ele for expresso em linguagem apenas superficial, sem camadas subjacentes, sem multiplicidade, ele se restringe ao conteúdo e fica quase acadêmico ou didático. Se, por outro lado, ele tiver grande trabalho técnico, o que chamei de destreza narrativa - muitas subordinações, rebuscamento lexical, piruetas linguísticas e descritivas - mas isso não estiver acompanhado de personagens, acontecimentos e cenas que sirvam de motivação para tanto, o texto será apenas circense.

Só é belo o que é necessariamente belo, disse uma vez Wassily Kandinsky, resumindo, com essa frase, toda a dificuldade que muita gente tem para compreender a arte moderna e contemporânea. Se a ideia unívoca de belo não faz mais sentido, como podemos defini-lo? Justamente pela necessidade. Se o leitor ou espectador encontra, no objeto artístico, uma relação de necessidade entre o que se apresenta e a forma como o objeto é apresentado, há beleza, mesmo que o resultado divirja de tudo o que já conheço como belo. Mesmo que seja feio, estranho, inquietante.

Não sei se podemos chamar isso de alma, como disse. Mas acredito que se possa chamar esse processo - tão difícil e, outras vezes, surpreendentemente fácil - de verdade literária.

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B-E-I-J-O

25 de Setembro de 2019

Por Noemi Jaffe no Blog Cia. das Letras

 

Não sou uma pessoa conservadora, mas não gosto do uso de "bj", "abç", "vc" e afins. O conservador é o que gosta de conservar e, nesse caso, gosto de pensar em conservar o "beijo", o "abraço" e "você", entre outros. As justificativas que me dão não convencem. Economizar tempo. Economizar o tempo de duas ou três letras? No cômputo geral, com todas as abreviações, a pessoa acaba economizando. É verdade. Pode ser que ao longo do dia inteiro teclando, ela tenha economizado uns cinco ou dez minutos nessa supressão de letras. Não me impressiona.

Costumo carregar de sentido o beijo que mando, o abraço e o você a quem me direciono. Por que reificar o sentido dessas palavras, tornando-as mais fáticas do que já são no uso corrente? Por que não dar a elas, justo elas, o toque de autenticidade de uma mensagem? Pense-se na diferença entre, por exemplo, "beijo", "um beijo", "beijinho", "beijos" e "beijão". São totalmente diferentes e mudam o teor da mensagem inteira, que se transforma instantaneamente por contaminação do tipo de beijo que se envia. O mesmo com "abraço" e suas variações. "Abração" é tão diferente de "abraço" que, por sua vez, não poderia ser mais diferente de "um abraço" ou do tão pouco utilizado "abracinho".

Fora a coincidência, que considero uma das maiores da língua, entre os sons da palavra "beijo" e o ato mesmo de beijar. Pense nos sons: b-e-i-j-o e em como eles beijam a boca de quem o enuncia. Como é bom dizer "beijo" e, com isso, oferecer, à mensagem inteira, uma carga de inutilidade e carinho, ao passo que "bj" só se adequa perfeitamente a toda a impessoalidade e pragmatismo do resto do conteúdo. Digo, por exemplo, "Joana, você esqueceu de comprar batatas no super". Se, ao final, acrescento um "bj", estou contrariada ou simplesmente dei a mensagem e não estou nem aí com a Joana. Só me preocupei com as batatas. Mas se digo "beijo", estou quase dizendo que vou eu mesma comprá-las e que é tão bonito o jeito como Joana as esquece.

Penso que a função fática é uma função, afinal. Estabelecer contato, afinar o canal. Por que tornar a função fática apenas uma reprodução vazia de automatismos cotidianos? Por que não dizer "oi", essa palavra tão linda, dando sentido, ainda que mínimo, ao "oi" que se diz. "Oi, pessoa". "Bom dia, pessoa". "Eu te desejo um bom dia".

"Vc", para mim, chega a ser desrespeitoso. Sou o "você" do outro, uma unidade mínima de estranhamento e alteridade. "Vc" me soa como uma extensão do "eu", uma mesmidão a que não quero me adequar. Passo a ser só mais um dado na praticidade geral das mensagens.

Sei que exagero. Não devia levar tão a sério essas palavras. Ninguém deixa de ser respeitoso ou carinhoso por isso. Deve ser verdade. Mas não quero sucumbir. Quero ter uma reserva mínima de conservadorismo, necessária só para o meu bem estar. Vou continuar usando "beijo", "abraço", "você" e "por que", mesmo quando até meu nome vire "Nm". Gosto das vogais.

 

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Compro seu carro, mesmo alienado

25 de Junho de 2018

Por Noemi Jaffe no Blog Cia. das Letras

O coração tem que se apresentar diante do Nada sozinho e sozinho bater em silêncio de uma taquicardia nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio, não para o silêncio astral.

Clarice Lispector foi acusada de alienação. Dizem que, como reação a essa etiqueta descabida, ela teria escrito A hora da estrela, explicitamente preocupado com aspectos sociais. 

E como ficaria o trecho acima, extraído de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres? Seria, nesse caso, um exemplo de alienação? Afinal, o que teriam a ver o Nada, o próprio coração e o pequeno silêncio com causas políticas?

Em primeiro lugar, a alienação não se relaciona somente à consciência sobre problemas coletivos de ordem social, política ou econômica. A alienação, como o nome - alien - diz, é uma dependência do outro. Alienado (como os carros que ainda não tiveram os débitos quitados) é aquele que não está de posse de algo ou de si mesmo; que se encontra em estado de heteronomia, ou, melhor dizendo, sem autonomia.

E em segundo lugar, a consciência política (e social e histórica e econômica e pública e etc.) não acontece somente pela via do discurso explícito ou mesmo subliminar. Falar sobre lavar a louça e ir ao supermercado, os buracos negros e um amor perdido, o liquidificador quebrado e a fórmula de pi, a queda do filho do vizinho, a novela das 8 e o rabo da minha cachorra, o último biscoito do pacote de cream crackers e o dente que dói, dependendo da forma como se fala, pode ser mais politizado e menos alienado do que falar sobre junho de 2013 ou sobre o golpe de 2016. 

Negar-se a usar a língua finalista que serve para comunicar, ou, em outras palavras, que se submete a um objetivo fora de si mesma, já é, por si mesmo, subversivo e, portanto, desalienado. E apresentar-me diante do Nada sozinho e sozinho bater em silêncio uma taquicardia nas trevas é a linguagem e o eu se desnudando à frente do abismo, ousando dizer o que mensagens com conteúdo claro muitas vezes não sabem, mas acabam encobrindo. Quando grito "sou contra as injustiças, quero a volta da democracia, abaixo a ditadura", mascaro, talvez sem consciência, a entrega viva da minha voz e corpo ao desconhecido que nos engole. Entro numa espiral conhecida e já pisada de protestos idênticos, que, por sua repetição, me protegem.

Não adianta querer fazer literatura panfletando minhas opiniões sobre questões complexas do povo. O resultado pode ser não mais do que um manifesto passageiro ou, simplesmente, má literatura. O absurdo, o fantástico, o incompreensível, o psicológico, o subjetivo podem todos ser tão ou mais presentes, reais e agentes quanto o realista, o naturalista, o irônico e o crítico. A alienação e a desalienação não são processos fixos e absolutos, mas constantes. E é na linguagem com corpo e consistência, com experimentação e risco; é na palavra carregada de estranhamento que o leitor se desloca e se desaliena de seu lugar habitual. É ela que o desajusta e o faz perguntar, como em "O espelho", de Guimarães Rosa, "Você chegou a existir?"

 

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Mistério desmisterioso

23 de Maio de 2018

Por Noemi Jaffe no Blog Cia. das Letras

 

É engraçado. Quando se pergunta como aprender a tocar violão, a resposta instantânea é: fazendo um curso de violão. O mesmo com desenhar ou aprender a jogar futebol. Mas, para muitos ainda, a resposta para como escrever é: só com inspiração. Como se escrever se localizasse num patamar superior ao das outras artes e práticas; como se a ideia de aprender a escrever diminuísse a própria escrita, ou, o que desconfio mais, o trabalho do escritor. Afinal, se o escritor é movido por inspiração, ou talento, ou dom, aquilo é necessário e incontornável para ele, e inacessível para os outros.

De onde vem a ideia de inspiração? De sopro e respiração. Na tradição bíblica, Deus soprou a vida em Adão, fornecendo-lhe, com isso, sua alma. As musas gregas sopram os poemas aos poetas e aos aedos, que os declamam, convocando, com sua voz e com as palavras, sua própria presença epifânica. A inspiração, nessas acepções, provém da transcendência e ao poeta nada mais cabe do que cumprir-lhe os desígnios. Os poetas românticos, como se sabe, endossaram e reforçaram essas ideias, convenientes para os localizarem em um espaço privilegiado e inalcançável pelos outros mortais: é o gênio, o asceta, o sofredor, aquele que escreve com sangue e lágrimas, cuja vida se indistingue da obra.

Mas por que isso perdurou, depois das vanguardas, da queda do gênio e do herói, da passagem da analogia para a ironia (de acordo com Octavio Paz), da consciência do poder do mercado e da reprodutibilidade de tudo?

Porque a inspiração literária tornou-se um mito e, como todo mito, preservou-se em sua inefabilidade e a escrita, promiscuamente misturada à língua que todos falamos, precisa de um lugar isolado e eleito para discriminar-se de sua "irmã vulgar". Por partilhar com a fala a banalidade do significado, a literatura se arrojou uma dimensão mais elevada.

Discordo de quase tudo que subjaz a esse pensamento. Creio que a escrita literária acontece por meio da linguagem, que, por sua vez, só se realiza na prática. Se é verdadeira a frase de Picasso "se a inspiração quiser vir, que venha, mas vai me encontrar trabalhando" (que, aliás, lembra a de Rosa, "se Deus quiser vir, que venha, mas vai me encontrar armado"), a inspiração não é mais do que aquilo que se aciona na mente e no corpo quando a vontade literária do escritor se põe a escrever, a pesquisar, a experimentar, a revisar. Depois de períodos, mais longos ou mais curtos de trabalho integrado entre circunstâncias (pessoais e coletivas), informações, memória, conhecimento, pensamento, experiências, sensações, sentimentos, ideias, intuição, imaginação, sonhos e outras coisas que nem sabemos definir, criam-se espécies de combustões instantâneas e, aí sim, misteriosas, para surgirem então aquilo que chamamos de momentos inspirados: grandes frases, ótimas ideias estruturais ou formais, pequenos detalhes reveladores, o que faltava ao personagem ou à cena, o instante em que o substantivo acha o adjetivo que lhe faltava, como no conto "O Cônego ou Metafísica do Estilo". Nesses agoras mínimos, de forma algo inexplicável, ocorre a fusão de várias faculdades mentais e quem passa a escrever não é mais a cabeça, mas a mão e o corpo assumem o exercício, suando e tremendo. É a hora do risco, em que autor e texto são o mesmo e quando a vida lá fora e lá dentro fica menor do que escrever. Concordo que aqui ocorre algo inexplicável e é bom que seja assim. Que, na confluência de trabalho, disciplina, desejo e vontade de escrever, haja aquilo que não se domina; talvez um toque de gênio, talvez um imprevisto, o acaso, algo que não esperávamos conhecer. Mas saiu, está lá, não sei porquê e é bom.

Por isso, escrever é algo que pode sim ser aprendido. O mais importante é a pessoa querer escrever, querer aprender e ler muito, de tudo, sem parar. E depois se dispor a trabalhar muito até pingar o suor. Ou correr também não pode ser uma atividade inspirada e inspiradora?

Claro que, como resultado do aprendizado, alguns vão escrever textos melhores e outros nem tanto. O certo, entretanto, é que vão escrever melhor do que sabiam e do que podiam imaginar.

E todos, sem exceção, vão conhecer o mistério desmisterioso da inspiração, esse monstro e anjo que visita apenas quem quer ser visitado.

 

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O inconformismo e a cesta de legumes

12 de Abril de 2016

Por Noemi Jaffe no Blog Cia. das Letras

 

Como curar um fanático, livro recentemente reeditado de Amós Oz, tem um título bem-humorado, pois trata o fanatismo como se fosse uma doença passível de cura. Talvez não o seja, porque, na verdade, deve ser um tipo de patologia dessas irremediáveis.

Mas, se houver possibilidade de reversão, Amós Oz propõe, no mínimo, duas receitas: o humor e a curiosidade.

Sua ideia sobre como utilizá-los para curar fanáticos está no livro.

Gostaria de desenvolvê-las, aqui, sob o ponto de vista mais específico da literatura. Claro que nem ousaria chegar a seus pés, mas, ultimamente, nós brasileiros temos tido uma experiência de convivência com o fanatismo que nenhum de nós esperava ter. Então, talvez, esse ponto de vista também possa entrar no rol das prescrições curativas.

Em primeiro lugar, a curiosidade.

Para alguém ser escritor, ou mesmo um leitor, a curiosidade e o inconformismo são imprescindíveis. É preciso perguntar-se: "por que as coisas são ou não são assim?" e, também, "como elas seriam se assim não o fossem?". Ao tentar responder essas perguntas, o que o escritor faz é criar uma nova vida. Um novo objeto vivente: a história que se conta. Ela é ficcional, mas está viva e fala da e na vida, mesmo quando inverossímil, absurda ou surreal.

Em função dessa dinâmica, digamos assim, metabólica e sanguínea, os romances e contos são muito mais concretos do que abstratos, da mesma forma como a vida sensível o é. O leitor de um romance vive o medo, a dor, as preocupações, a dificuldade de pagar a conta de água, o preconceito, a dor de corno, a velhice e a coceira na orelha que sentem os personagens. Ele vê e ouve a paisagem, o confinamento da prisão, a mulher e o homem desejados, os ruídos do caminhão de gás na China, as montanhas andinas e a sujeira de uma rua no Paquistão. E é essa vivência vicária, a vivência da vida do outro, que faz com que o horizonte interno do leitor e do escritor se ampliem, com que ele, efetivamente, conheça concretamente a compaixão, a "co-pathos", a dor do outro, não de forma teórica, mas concreta e viva.

Ora, se concordarmos que o fanatismo é uma prática quase religiosa, derivada da incapacidade de reconhecer o outro ou a perspectiva de quem pensa diferente de si, a literatura seria, ainda que involuntariamente, uma forma, a partir da curiosidade, de "curar" essa obtusidade, esse estreitamento do olhar. Se sinto em minha pele a dor por que passa um negro nos Estados Unidos de década de 50 — se não sei "sobre" a dor, mas sei "a" dor —, tenho mais chance de compreendê-la e de ajudar a combatê-la.

Em segundo lugar, o humor.

Na Grécia Antiga, mais especificamente na Poética, de Aristóteles, a comédia é considerada um gênero inferior à tragédia. A segunda teria a função catártica, purgativa, de expulsar as paixões negativas dos espectadores, por meio do modelo punitivo. Quem desafia o destino é duramente punido. Portanto, aceite o que determinam os deuses. Já à comédia restava um papel de entretenimento, saudável, mas menos elevado.

Entretanto, pode-se também dizer, agora passados mais de dois mil anos, que a comédia tem, em certa medida, um lugar, digamos assim, mais "maduro" em relação à tragédia. É como se na comédia o texto e os personagens compreendessem que o destino de todos, irremediavelmente, é fatal: a morte. Estamos todos condenados ao mesmo pó indistinto e, por isso, podemos rir da solenidade e austeridade da vida e de suas determinações fixas. Abre-se um espaço relativista, uma brecha perspectivista, porque cai por terra a bandeira do absoluto, da totalidade que paira sobre nossas cabeças. É possível rir da vida e da morte.

Rir de si mesmo pode ser um remédio para o fanatismo também. O fanático, segundo Amóz Oz, não ri. Está "tomado" pela seriedade de sua causa. Como ele se leva a sério demais, acaba por não levar o outro em consideração, porque o outro existe somente para ser descartado.

Finalmente, se o fanatismo adota a ideia de que os fins justificam os meios, e se comporta nesse sentido, em que valem quaisquer práticas para justificar uma causa última, a literatura está convencida de que são, ao contrário, os meios que justificam os fins. Ou seja, é pela prática dos caminhos, daquilo que se constrói enquanto se está construindo, que se saberá, se é que se saberá, quais são os fins. O fim é determinado pelo itinerário que se toma, sempre aberto a novas possibilidades. Ou seja, o fim e o meio acabam sempre por coincidir, como na vida, como em cada momento.

Vá até a rua. Olhe cem metros à frente. Quem você vê? É um desconhecido? O que ele está fazendo, sentindo, pensando, desejando? Tente responder essas perguntas. Se ainda assim você considerar que sua "causa" é mais importante do que essas perguntas, parabéns, você está no caminho para se tornar um fanático. Mas, se você considerar que as respostas a essas questões valem mais do que mil totalidades absolutas, que uma cesta de legumes vale mais do que o socialismo ou o capitalismo juntos, parabéns também, talvez você esteja no caminho de escrever um romance.

 

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